Redução da jornada na construção civil pode elevar preço de imóveis
Abrainc aponta aumento de até 11% no valor das unidades
Foto: José Paulo Lacerda / CNI – A possível redução da jornada semanal de trabalho na construção civil pode provocar aumento no custo dos imóveis novos no Brasil. Um estudo encomendado pela Associação Brasileira das Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) aponta que, caso a carga horária seja reduzida de 44 para 40 horas semanais, os preços das unidades poderiam subir cerca de 5,5%. Já em um cenário de diminuição para 36 horas, o impacto poderia chegar a 11%.
A análise foi elaborada pela consultoria econômica Ecconit e avalia os efeitos do possível fim da escala 6×1, amplamente adotada nos canteiros de obras. A discussão ganhou força no Congresso Nacional, onde tramitam duas propostas de emenda à Constituição na Câmara dos Deputados do Brasil que propõem reduzir a jornada de trabalho sem redução salarial, com o argumento de melhorar a qualidade de vida, a saúde física e mental dos trabalhadores e estimular a produtividade.
Segundo o levantamento, em um empreendimento do segmento de baixa renda com valor geral de vendas estimado em R$ 100 milhões, a redução da jornada para 40 horas elevaria o custo total da obra em cerca de 10%. Com isso, a taxa interna de retorno (TIR) do projeto cairia de uma média de 25,7% para 15,6%. Caso a carga semanal fosse reduzida para 36 horas, o custo poderia aumentar em até 20%, reduzindo a TIR para 6,7%.
Os pesquisadores também consideraram a possibilidade de atraso no cronograma das obras devido à necessidade de contratar mais trabalhadores. Em um projeto com prazo médio de 24 meses, seria necessário ampliar o período de construção em dois meses no cenário de jornada de 40 horas e em quatro meses no caso de 36 horas semanais. Nessas condições, a taxa interna de retorno poderia recuar ainda mais, chegando a 13,8% e 5,3%, respectivamente — níveis abaixo do mínimo considerado atrativo pelo setor.

Outro fator apontado pelo estudo é o peso da mão de obra nos custos da construção civil. Enquanto nos canteiros ela representa cerca de 40% das despesas totais, na indústria em geral esse percentual gira em torno de 15%. Além disso, a produtividade do setor no Brasil ainda é considerada baixa: segundo pesquisa anterior da própria Ecconit, ela é 54% inferior à média da economia nacional e 84% menor que a de países desenvolvidos.
Para Francisco de Oliveira Filho, presidente da Habicamp, mudanças abruptas na jornada precisam ser analisadas com cautela por causa dos impactos econômicos e sociais. “Qualquer aumento relevante nos custos da construção tende a ser repassado ao preço final dos imóveis. Isso pode reduzir o número de novos projetos e dificultar ainda mais o acesso à moradia, principalmente para as famílias de renda mais baixa”, afirmou.
