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Setores postergam investimentos e retomada deve vir após as eleições

Os sinais de retomada do consumo já emitidos são insuficientes para estimular decisões de investimentos de longo prazo. Por enquanto, o que prevalece é a postergação dos desembolsos privados, pelo menos até as eleições presidenciais de 2018.

Para o assessor econômico da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio) Altamiro Carvalho, o compasso de espera atinge a todos os setores econômicos e reflete, além da incerteza sobre o futuro político brasileiro, a alta capacidade ociosa e a trajetória de queda contínua da taxa básica de juros (Selic). “Aqueles que podem postergar o investimento até um momento de maior visibilidade, postergarão”, afirma Carvalho.

“Isso porque além da base imensa de capacidade ociosa a ser utilizada, a perspectiva de que os juros ainda devem cair mais adia o financiamento de investimentos para um momento de custo menor.”

“É a retomada de investimentos mais lenta de todos os tempos”, afirmou ontem o superintendente de estatísticas públicas do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), Aloisio Campelo Junior, ao explicar o resultado do indicador de intenção de investimentos da indústria, calculada pela fundação.

O índice recuou 2,8 pontos no terceiro trimestre deste ano, ante os três meses anteriores, para 105,1 pontos.

O indicador – que antecipa tendências econômicas – recuou tanto nas empresas que prevêem investir mais (de 25,6% para 21,1%), quanto das que prevêem investir menos (de 17,7% para 16,0%).

Com menor incidência de respostas extremas, o índice teve a maior parcela de empresas que projetam estabilidade dos investimentos nos próximos 12 meses.

De acordo com Campelo Junior, o indicador não sinaliza crescimento ou queda, mas, sim, a “saída do fundo do poço” esperada pelo mercado. O movimento, porém, ainda têm interferência do ambiente político e fiscal no País.

“Apesar de alguma sinalização de recuperação, questões como o alto desemprego e endividamento e a falta de um horizonte certo para os próximos dois ou três anos atrapalham a percepção do mercado”, avalia o especialista e pondera que tudo está muito aquém do esperado.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que além da taxa de investimentos no País no segundo trimestre ter sido a pior para o período da série histórica (com 15,5% ante 16,7% de igual intervalo de 2016), o setor de serviços também mostrou reações discretas, com queda de 0,8% em julho ante junho.

Setores ‘promissores’

Dentre os setores da economia, os especialistas consultados pelo DCI ponderam que a perspectiva para aqueles que investem no curto e médio prazo é de retomada gradual por “necessidade”, mas que o investimento de longo prazo ainda “demora a acontecer”.

De acordo com Campelo, do Ibre/FGV, a falta de visibilidade sobre o cenário brasileiro até 2019 impossibilita uma análise sobre o retorno esperado para as empresas e, nesse caso, apenas alguns setores estarão dispostos a investir.

“A exemplo do agronegócio que anda muito bem e de alguns setores industriais que ganham mesmo sem crescimento da economia, os investimentos podem ter avanços pontuais. Mas, no geral, ainda não dá para imaginar aceleração forte em pouco tempo”, avalia o superintendente.

Para Carvalho, principalmente nos segmentos que precisam de “investimentos mais maturados”, com operações de 4 a 5 anos, a retomada só tende a vir a partir do final de 2018. No geral, porém, o economista destaca que alguns segmentos se apresentam “promissores”.

“No caso do varejo, por exemplo, a expectativa é que o setor seja o primeiro a se recuperar e suba até 5% no ano. O movimento no segmento imobiliário também deve impulsionar o setor de construção civil”, afirma. “De outro lado, a indústria ainda se preocupa com o longo prazo e o setor de serviços, por sua vez, deve ser o último a trazer resultados expressivos”, completa.

“Até o final do ano, o que dá para imaginar é apenas um crescimento na margem na formação de capital bruto fixo, e isso ainda é muito pouco”, conclui Campelo, da FGV.

Fomento nacional

Já em relação aos possíveis impactos das mudanças que envolvem o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) como a Taxa de Longo Prazo (TLP) e a devolução de R$ 180 bilhões para o governo, os especialistas avaliam a possibilidade de um “momento de transição” dos investimentos.

“Os juros subsidiados reduzidos não fazem diferença para esse movimento, principalmente porque com a queda da Selic, o custo do crédito deve cair de forma mais generalizada”, comenta Campelo Junior. (DCI)

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