Estrangeiros se naturalizam para garantir área maior no Brasil

Depois de 20 anos morando e trabalhando no Brasil, o holandês Jacobus
Johannes Hubertus Derks achou que era hora de construir um patrimônio. Com o
dinheiro economizado na criação de vacas de leite e porcos, com os pais e
irmãos, numa pequena propriedade de Holambra (SP), em 1976, ele pretendia
comprar uma grande área em campos ainda inexplorados de Paranapanema, no
sudoeste paulista.

Ao fechar o negócio, soube que só poderia adquirir 45 hectares, área menor
que a pretendida. “Como era estrangeiro, só pude comprar três módulos
rurais, o máximo permitido por lei. Era uma boa terra, mas insuficiente para
os nossos projetos.”

Derks e a esposa tiveram de se tornar brasileiros naturalizados para fazer
novas compras de terras. “Nós já tínhamos residência contínua aqui,
convivíamos com os brasileiros e gostávamos do país, mas havia essa
limitação. Então nos tornamos brasileiros naturalizados, mas não foi só pela
terra”, disse.

Com a naturalização, Derks investiu na compra de novas áreas até tornar-se
um grande produtor de grãos e algodão em sua propriedade, a Fazenda Amarela
Velha. Mais tarde, adquiriu também terras na região de Unaí (MG). Aos 68
anos, Derks repassou a gestão dos negócios agrícolas aos dois filhos
brasileiros, Thiago e Thomas.

Ele conta que muitos imigrantes holandeses vieram para o Brasil depois do
fim da 2.ª Guerra em busca de trabalho e oportunidade. “Na época, o Brasil
aceitava os imigrantes, até para formar colônias e trabalhar a terra. Não
eram todos os países que aceitavam.” Seus pais migraram com os cinco filhos
– ele tinha apenas três anos. “Hoje, com a situação muito estável na Europa,
a vinda de europeus para o Brasil diminuiu muito. Quem está investindo em
grandes áreas de terra são grupos multinacionais.”

Grato ao País, em 2013 o produtor rural usou sementes de cereais como trigo,
triticale, aveia e canola para formar, em sua fazenda, uma gigantesca
bandeira brasileira, com 890 metros de comprimento por 680 metros de
largura, numa área equivalente a 70 campos de futebol.

Sem burocracia

O italiano Claudio Poli, que mora na região de Treviso, norte da Itália,
conta que não teve nenhuma dificuldade para comprar um sítio de 3 hectares,
no bairro Rio Una de Cima, em Ibiúna, interior paulista, em 2002.

“Na época, passei uma procuração para uma cunhada brasileira e ela cuidou de
tudo. Só estive lá para conhecer a propriedade, mas o negócio foi fechado à
distância”, disse. Poli tinha planos de explorar o sítio com turismo e
piscicultura, mas o projeto não seguiu adiante. “Vendi alguns anos depois
como comprei, sem nenhum problema.” O italiano acredita que foi dispensado
de mais formalidades por se tratar de área pequena.

O iraquiano Nawfal Assa Mossa Alssabak também se naturalizou brasileiro
antes de comprar terras no bairro Rio da Várzea, em Pereiras, onde instalou
o maior criatório de frangos de corte do Estado de São Paulo, com 1 milhão
de aves alojadas. Nawfal está desde 1982 no País e se naturalizou em 1990. A
fazenda foi adquirida dez anos depois e a maior parte dos funcionários é de
brasileiros. Procurado, Nawfal informou que não falaria sobre seus negócios.

Entre 1998 e 2016, estrangeiros de 40 países compraram 10.132 propriedades
rurais no Estado de São Paulo, segundo dados do Incra. A grande maioria –
mais de 95% – tinha área inferior a 100 hectares. O maior número de compras
foi registrado em 2002. Os japoneses lideraram as compras, seguidos pelos
portugueses, italianos, espanhóis e alemães, mas há registro de aquisição de
áreas também por declarantes da Rússia, Jordânia, Coreia do Norte e
Cingapura, além de países africanos.

A maior propriedade, a fazenda Chácara Arco Íris, com 62,4 mil hectares, foi
adquirida em novembro de 2002 por um grupo japonês. Segunda maior área, a
Fazenda Guapiara, com 21,2 mil hectares, foi comprada por um suíço em março
de 1997. (O Estado de São Paulo)

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