A arquitetura deve permitir que as pessoas conversem

foto: André Seiti/Divulgação – Às vésperas de completar 90 anos, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha recebeu
uma homenagem. Alguns de seus projetos que nunca saíram do papel, como a
piscina pública pensada para a Praça da República, estão expostos em uma
Ocupação do Itaú Cultural. Foi nesse ambiente, entre maquetes e desenhos,
que Paulo recebeu a reportagem. Mesmo avesso à fama, acolheu com carinho
todos aqueles que pararam para tirar uma foto ou parabenizá-lo por alguns de
seus trabalhos, que incluem o Museu Brasileiro da Escultura e o Sesc 24 de
Maio, inaugurado em 2017. São obras como essa que exemplificam sua ideia de
que a arquitetura deve ser responsável por unir as pessoas e permitir que
elas conversem, já que ninguém pode viver no isolamento. Sem se ater ao
passado, ele demonstra interesse na expansão humana além da Terra, desde que
os problemas daqui possam ser resolvidos antes que seja tarde demais.

A Ocupação P. M. R. reúne diversos projetos que não saíram do papel. O
senhor se arrepende de não ter erguido algum deles?

A arquitetura é uma forma de conhecimento como qualquer outra. Você pode
falar disso o quanto quiser, não precisa alguém pagar ou te encomendar um
projeto. Claro que eu trabalho para ganhar a minha vida. Preciso ser pago.
Mas algumas especulações você não resiste a fazê-las, independente de alguém
encomendá-las ou não. Por exemplo, essa história da piscina na Praça da
República. É, aparentemente, um absurdo, ainda mais quando se fala de verde.
É o que eu acho que São Paulo gostaria: uma piscina de 100 metros por 50,
com dois solários, um de cada lado, além de duas torres de acesso e que
cobrisse uma área enorme, livre, no chão, para o povo fazer o que quiser.
Para mim, é uma imagem da cidade mais interessante que plantar arvorinhas,
compreende?

Qual o grande problema das cidades contemporâneas?

Planejamento territorial. As cidades feitas sem planejamento territorial
amplo são um desastre. A cidade contemporânea tem sucesso, como ideia,
realizada pela possibilidade da verticalização, ou seja, prédios altos, onde
você consegue adensar a população. Porque só assim é que tem sucesso a rede
de esgoto, telefonia, energia elétrica, etc. São Paulo começou com o
loteamento de terrenos para casas na Avenida Paulista. Não tem cabimento
editar o recurso da verticalização em cima dessa matriz anterior.

Existem exemplos de sucesso dessa verticalização em harmonia com o espaço
público?

Na Avenida Paulista o melhor exemplo disso é o Conjunto Nacional, porque ele
foi feito na quadra inteira. Você não tem uma garagem com automóvel saindo a
cada 20 metros. Eles saem pela rua secundária, coisas assim. O chão é todo
público, com teatro, cinema, livraria, café, restaurantes. Os escritórios
estão lá em cima. Virtudes fantásticas. O Copan é outro exemplo em que o
chão continua o espaço da cidade. Andando por ali você não tem um bloqueio.
Tem cafés, cinemas, restaurantes. As casas estão todas em cima, com a
virtude de ter apartamentos de 50 metros quadrados e outros de 150. Ou seja,
não é o tamanho da casa que distingue se é popular ou não.

São Paulo é uma cidade gigante. Qual o papel da arquitetura e do urbanismo
na manutenção dela como uma cidade viável para se viver?

Eu teria horror nessa entrevista de parecer alguém que exibe sabedoria. Digo
o que penso com atenção, mas posso também estar enganado. São Paulo, essa
cidade só existe porque só aqui havia trabalho, nessa miséria de coisas que
não foram feitas. Destruíram até aquilo que estava feito, como a Central do
Brasil, que ligava São Paulo ao Rio de Janeiro. Não só não fizeram, ou
melhor, não fizemos, não desenvolvemos um plano ferroviário no Brasil, a
ponto de destruir, até, em benefício do caminhão e das rodovias, por
interesses escusos. E, com isso, um fenômeno como São Paulo surgiu, uma
cidade de 20 milhões de habitantes. O que é uma estupidez. Fruto da falta de
desenvolvimento territorial como ocupação inteligente do homem que trabalha.

São Paulo tem solução? Tem se falado muito em mobilidade urbana, em usar
bicicletas…

Ah sim, se puderem nos fazer de palhaços ainda vamos andar de bicicleta, ou
andar em cima de uma coisa que tem uma roda e um motor. Andar de bicicleta é
para quem quiser, não pode ser uma alternativa de transporte. O automóvel em
si é uma estupidez que não tem tamanho. Além de poluir a atmosfera, você faz
um cretino queimar esse troço, o petróleo, retirado das entralhas do
planeta, para transportar seu pequeno corpo de 80 quilos arrastando uma
lataria de 800 quilos. Um absurdo total. Nós continuamos com essa besteira
toda, quando seria, talvez, muito mais estimulante enfrentar, com clareza, a
graça inteligente de processos realmente capazes de transformar a natureza e
torná-la efetivamente habitável. É muito interessante considerar isso.

O senhor vê exemplos dessa transformação?

O melhor exemplo que temos disso apareceu no âmbito da Revolução Soviética.
Foi um movimento inteligente, de cientistas, engenheiros, arquitetos e
artistas chamado construtivismo soviético. Nesse movimento, o planejamento
territorial amplo para amparar a ideia de cidade estava contido com clareza.
Todo estudante de arquitetura deveria ser levado a ler. E não se trata de
dogmatismo nem se trata propriamente de defesa de nenhum princípio
comunista. O desastre de uma experiência ou outra de governo objetivo dentro
desse sistema não anula a reflexão sobre o interesse das transformações,
feitas com rapidez histórica na chamada revolução. A ideia de revolução que
estou falando, e sobre a qual estou me demorando, é feita pelo povo, para o
povo e com o povo, se possível sem morrer ninguém. Não é uma visão
sanguinária. É uma visão de realização de altos ideais humanos há muito
tempo sonhados, como qualquer navegação, qualquer ferrovia construída em uma
cidade.

Como manter a memória de uma cidade no meio de tanta verticalização?
A memória anda conosco. Ela não está na parede da casa ou na porta da casa.
Essa é outra questão muito discutida. Uma coisa ou outra pode ficar como
monumento. Mas essa mania que nós temos de tombamento de qualquer porcaria
não faz sentido. Tomara que pegue fogo e se derrube tudo, porque são coisas
frágeis, sem significado algum. Antes de mais nada, além das coisas que já
construímos e estão destinadas à vida pública, a natureza por si não abriga
o homem como a gente imagina. Isso é uma fantasia tola. A natureza é um
inferno. Nós temos que viver em um habitat construído por nós, em uma
natureza transformada. As cidades são construídas artificialmente porque é
desejável que seja assim. Já estamos ensaiando a expansão da vida humana no
universo. Ou seja, há para esses projetos largos horizontes. Por isso mesmo
essas asneiras feitas por aqui não tem cabimento.

Ainda faz sentido morar em casas?
Nenhum sentido. A graça da nossa vida prevê essa concentração de pessoas.
Você tem que encontrar essas pessoas. Por exemplo, qual seria o objeto
supremo da arquitetura? Eu te digo: é amparar a imprevisibilidade da vida.
Se eu sei que o metrô passa no mesmo lugar a cada três minutos, eu não tenho
pressa de encontrar meu amigo. Eu vou no botequim tomar uma cerveja. Isso
está ligado à liberdade das decisões. É uma vida ativa altamente criativa.
Outra resposta: qual é o objeto da arquitetura? É permitir que conversemos.

O senhor passou por tantas mudanças no Brasil e no mundo. Como o senhor vê
essa eleição?

Essa eleição é um absurdo montado com a estupidez acumulada. Só de imaginar
a existência de 30 partidos… A ideia de um partido político é que ele
tenha um programa capaz de seduzir os seus adeptos. Ora, como um país pode
ter 30 projetos? A rigor, nós devíamos condenar alguém a senador. Ele tinha
que aceitar encostado na parede.

Estamos vendo uma guinada para a extrema direita não apenas no Brasil, mas
em vários países do mundo.

É um mau sintoma para quem viu o que foi a Alemanha nazista, a Itália
fascista. A guerra acabou ontem. Só o fato da União Europeia não ter
conseguido, como de fato não conseguiu, se consolidar plenamente já é um
sintoma horrível da incapacidade humana de enfrentar realmente a sua
condição.

Em 2006 o senhor ganhou o Prêmio Pritzer, o mais importante da arquitetura.
Qual o sentimento de receber essa homenagem?

É comovente ver que os outros olham o trabalho que você fez. Mas ganhar
prêmio é um inferno. Tira o sossego da vida. É preferível você passar
quieto. Ninguém saber quem é você é melhor. Não é que trabalho com sucesso
não te dê grande prazer. Dá grande prazer.

A arquitetura virou um artigo de luxo?
A arquitetura é uma forma de conhecimento indispensável. Não é para ser de
luxo. Essa coisa que vemos na TV já é uma degenerescência da ideia. Nós
temos de evitar a degenerescência. Mas é que há um produto a vender. Se você
aceita a lei de mercado como o objeto do homem, então a arquitetura virou um
produto. Tem que ter popular e de luxo, tudo isso.

O que o incêndio do Museu Nacional significou?
Aquilo que estava lá dentro, se era para guardar, devia ser bem guardado.
Você não pode por embaixo de um telhado de madeira. É totalmente possível
criar um lugar totalmente incombustível, e é um absurdo não terem feito
isso. Mostra que o nosso passado está feito para ser consumido pelo fogo
todo.

Aos 90 anos, olhado tudo o que já fez, como o senhor vê esse legado? Tem
alguma obra que te traz mais orgulho?

Olha, você não pode propriamente ter orgulho da sua obra. Você tem
preocupação, acha que tudo podia ser mais bem feito, geralmente nada é
construído como deveria. Mas eu vou te dizer a verdade absoluta sobre essas
questões assim, pessoais e individuais. Eu gosto muito da vida. A vida é
para ser gozada plenamente. Eu não posso imaginar outra vida a não ser a
mesma que eu tive, porque você teria que abrir mão dessa, e de fato a minha
eu posso dizer que foi muito boa (IstoÉ,)

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